Um olhar retrospectivo sobre o caso Jacques Baud, com um detalhado debate entre Pierre Jean Duvivier e Guy Mettan.
Este debate revisita os factos, os pontos de desacordo e as questões mediáticas em torno deste caso.
Desde 2014, a Rússia retratou a guerra do Donbass como uma "guerra civil ucraniana", o que é uma ficção.
Este artigo demonstra, com fontes de apoio, que esta narrativa é factualmente enganadora: o conflito foi desencadeado e estruturado pela intervenção russa, de acordo com declarações públicas de atores pró-russos e documentos institucionais.
Introdução — Sobre o Método de Baud e as Suas Limitações Analíticas
Antes de examinar os argumentos factuais sobre a presença — ou ausência — de tropas russas no Donbass, é essencial esclarecer o que Jacques Baud realmente defendeu e o método intelectual que usou para sustentar as suas posições. Uma parte significativa do debate deriva menos de desacordos factuais específicos e mais de uma profunda divergência sobre como interpretar evidências incompletas num contexto de guerra híbrida.
Nos seus textos, entrevistas e palestras anteriores à invasão em larga escala de 24 de fevereiro de 2022, Jacques Baud manteve consistentemente que, na sua opinião, não havia provas sólidas de uma presença massiva, estruturada e permanente de tropas regulares russas em território ucraniano, particularmente no Donbass. Argumentou que as forças que combatiam do lado separatista eram compostas principalmente por combatentes locais, voluntários — incluindo estrangeiros — e, ocasionalmente, conselheiros russos. Enfatizou que as acusações ocidentais dependiam largamente de informações declarativas de inteligência, interpretações de imagens de satélite e narrativas mediáticas que considerava tendenciosas. É importante recordar, como ele próprio faz regularmente, que estas análises foram formuladas antes de 2022, ou seja, antes da invasão russa oficial e reconhecida da Ucrânia.
No entanto, a posição de Baud torna-se problemática quando surge confusão — intencional ou não — entre a ausência de uma presença massiva e visível, no sentido clássico de um destacamento de divisões blindadas identificáveis ou forças expedicionárias, e a ausência completa de qualquer presença real de forças regulares russas. O raciocínio implícito tende então a tornar-se binário: uma vez que não há um destacamento convencional observável em larga escala, não haveria tropas russas. Este raciocínio assenta num falso dilema, porque a questão central a partir de 2014 não era sobre uma invasão clássica, mas sobre a existência de unidades regulares a operar ocasionalmente, de forma discreta, sem insígnias, no quadro de uma guerra híbrida. Neste ponto, e mesmo antes de 2022, um conjunto de evidências publicamente disponíveis já contradizia a hipótese de uma ausência total.
Sem recorrer a fontes classificadas, vários factos foram de facto estabelecidos: capturas documentadas de soldados russos identificados como tal, por vezes oficialmente reconhecidas por Moscovo usando frases ambíguas como militares que "atravessaram a fronteira por engano"; o aparecimento no terreno de equipamento militar... Equipamento militar que não foi exportado, nunca fornecido nem à Ucrânia nem às forças separatistas, e assim exclusivamente em serviço com o exército russo; métodos operacionais, rotações e disciplina tática incompatíveis com as ações de milícias locais a agir sozinhas, e difíceis de explicar sem supervisão profissional; finalmente, perdas russas reconhecidas indiretamente através de pagamentos de compensação, enterros discretos e menções na imprensa regional russa. Em conjunto, estes elementos não implicam a existência de uma invasão massiva, mas são suficientes para invalidar a tese de uma ausência total.
O cerne do problema metodológico, no entanto, reside noutro ponto, na dependência implícita de um argumento de autoridade. Jacques Baud apoia-se fortemente na sua experiência passada em inteligência para afirmar que, se as tropas russas estivessem envolvidas, isso teria necessariamente sido claramente e incontestavelmente estabelecido. Esta afirmação é discutível por pelo menos duas razões: por um lado, as operações híbridas são precisamente concebidas para permanecer abaixo do limiar da prova pública, criando zonas cinzentas e negação plausível; por outro lado, a ausência de evidências publicamente reconhecidas nunca constitui, por si só, prova de ausência. Ao aplicar um quadro derivado da inteligência convencional a um conflito deliberadamente não convencional, Baud tende assim a subestimar a própria lógica da situação que afirma analisar.
Para ser intelectualmente rigoroso, é no entanto importante reconhecer o que permanece defensável na sua posição. Jacques Baud não negou o apoio, supervisão ou fornecimento de equipamento russo às forças separatistas, e as suas críticas visavam principalmente o que considerava exageros ocidentais, a ideia de uma invasão disfarçada já em 2014, e o uso político da inteligência no debate público.
Nestes pontos, o seu ceticismo inicial não era absurdo nem infundado, e serviu por vezes como um contrapeso útil a narrativas demasiado simplistas.
O ponto de rutura, no entanto, surge após 2022.
Uma vez lançada a invasão aberta, a tese de uma "não presença" prévia torna-se retrospetivamente insustentável, e algumas das suas posições subsequentes dão a impressão de ou minimizar elementos agora amplamente estabelecidos ou deslocar o debate para considerações sobre a NATO ou narrativas ocidentais sem corrigir explicitamente o erro inicial.
O problema não é o erro analítico em si, mas a ausência de uma correção clara e reconhecida.
Em última análise, embora a tese de uma ausência total de tropas russas antes de 2022 não resista ao escrutínio factual, Jacques Baud tinha no entanto razão ao denunciar certos exageros e simplificações ocidentais. O seu principal erro foi subestimar a lógica específica da guerra híbrida, o envolvimento discreto mas real das forças russas, e a manutenção deliberada por Moscovo de um limiar desfocado entre envolvimento e negação. Em suma, Jacques Baud fez boas perguntas, mas tirou conclusões demasiado absolutas.
Um dos pilares recorrentes do raciocínio de Jacques Baud é afirmar que, uma vez que a Missão Especial de Monitorização da OSCE (SMM) nunca observou ou documentou oficialmente a presença de unidades regulares russas no Donbass, deve concluir-se que esta presença simplesmente nunca existiu — uma linha de raciocínio que pode parecer rigorosa à primeira vista mas que, após exame metodológico, revela uma grande fraqueza estrutural.
Com efeito, a OSCE SMM operou sob condições extremamente restritivas, marcadas por limitações de acesso. Deslocações repetidas a zonas de combate, obstáculos constantes às suas capacidades técnicas — como a regular interferência ou neutralização de drones — e um quadro político que limitava drasticamente o que podia observar, documentar e, sobretudo, publicar publicamente.
Neste contexto, a ausência de observação não pode razoavelmente ser equiparada a uma ausência de realidade factual: "não ter observado" não significa "não ter estado presente", mas simplesmente "não ter conseguido estabelecer e disseminar uma observação verificável de acordo com os padrões da organização".
A conclusão rigorosa neste ponto é, portanto, necessariamente limitada: o argumento da OSCE não permite afirmar que as tropas russas estavam ausentes, mas apenas que a OSCE não conseguiu documentar publicamente a identificação formal de unidades regulares russas — uma proposição com um alcance completamente diferente.
Um segundo elemento avançado envolve citar um mapa de inteligência publicado pela imprensa americana em dezembro de 2021, nomeadamente divulgado pelo Washington Post, que supostamente não mostra presença de tropas russas no Donbass. Este mapa é então usado como evidência negativa destinada a invalidar quaisquer alegações contrárias.
No entanto, logicamente, este argumento coloca um problema fundamental: um mapa publicado num determinado momento não é nem uma crónica exaustiva nem uma síntese histórica completa, mas no máximo uma representação parcial, selecionada e contextualizada dependente de escolhas editoriais e da informação que os seus autores desejam ou são capazes de tornar visível naquele momento preciso. Tal representação não pode estabelecer uma verdade geral sobre um período tão longo e complexo como o de 2014 a 2021, muito menos excluir a possibilidade de rotações discretas, envolvimentos esporádicos ou intervenções limitadas no tempo. A única conclusão razoável é assim extremamente modesta: neste mapa específico, nesta data específica, os elementos gráficos publicados não mostram tropas russas no Donbass, o que fica muito aquém de refutar a totalidade dos factos alegados noutros locais.
O terceiro argumento frequentemente invocado baseia-se numa declaração de 2015 atribuída a Vasyl Hrytsak, então chefe do SBU, alegando que apenas cinquenta e seis combatentes russos tinham sido observados na Ucrânia. Esta declaração é usada para apoiar a ideia de uma ausência quase total de envolvimento russo.
Esta referência, no entanto, levanta várias questões importantes: primeiro, é uma declaração política feita num contexto de comunicação estratégica, não uma base estatística auditada, transparente e metodologicamente robusta; segundo, mesmo tomada à letra, esta declaração já invalida a ideia de que "nunca" houve tropas russas, uma vez que cinquenta e seis não é igual a zero; finalmente, e mais importante, o cerne do debate não é sobre a existência de um estacionamento massivo, permanente e oficialmente declarado de forças russas, mas sobre o envolvimento esporádico de unidades regulares em momentos críticos, particularmente em 2014 e 2015, durante fases decisivas do conflito. Mesmo interpretado da forma mais favorável, este argumento pode no máximo apenas apoiar a ausência de uma ocupação permanente em larga escala, e certamente não concluir uma ausência total de intervenção.
É precisamente nesta fase que entram em jogo as contraprovas da OSINT e das análises institucionais, porque para refutar a alegação categórica de que havia "zero tropas russas", basta estabelecer a existência documentada de unidades, equipamentos ou envolvimentos específicos. Fique atento.
Várias investigações independentes, incluindo as da Bellingcat, descobriram evidências convergentes, tanto diretas como indiretas, sugerindo a presença da 136ª Brigada de Fuzileiros Motorizados da Rússia no Donbass. Estas evidências incluem a identificação de pessoal, artilharia e tanques ligados a esta unidade.
Além disso, já em 2014, equipamento militar como o tanque T-72B3 foi observado. Naquela época, este modelo era usado exclusivamente pelo exército russo e não tinha sido exportado para a Ucrânia. Estes tanques foram identificados a atravessar a fronteira e em situações de combate, com documentação amplamente coberta por media internacionais especializados.
Além disso, análises institucionais, como as do think tank polaco OSW, descrevem explicitamente unidades militares regulares russas a atravessar a fronteira ucraniana no final do verão de 2014 e a envolverem-se diretamente em combate. Simultaneamente, a NATO declarou publicamente ter evidências — incluindo imagens de satélite — confirmando o envolvimento direto de forças russas no terreno.
Em conjunto, estas evidências são mais do que suficientes para refutar categoricamente a alegação de que não havia tropas russas no Donbass.
Embora isto não resolva todos os debates sobre a escala exata, o momento, a natureza oficial ou a estrutura de comando destes envolvimentos, torna qualquer posição baseada na negação absoluta insustentável.
A partir deste ponto, uma discussão séria já não pode ser sobre se houve uma presença russa, mas apenas sobre a sua natureza, intensidade e objetivos estratégicos.
Vamos desmontar quatro alegações da propaganda russa:
### ALEGAÇÃO Nº 1 — "O Donbass ergueu-se espontaneamente contra Kiev"
VEREDICTO: FALSO
Igor Girkin (Strelkov), um ex-oficial da FSB e líder militar das forças separatistas na primavera de 2014, declarou publicamente:
"Fui eu que puxei o gatilho desta guerra. Sem a nossa unidade, tudo teria esmorecido..." (fonte no final do artigo)
Explica que em 2014, sem a entrada da sua unidade, o movimento não teria escalado para guerra (comparando com outras cidades onde a agitação falhou).
O que isto demonstra:
* Girkin não é um "local": é um ator russo ligado a estruturas de segurança da FSB russa (serviço de informações).
Reivindica um papel desencadeador (não mera participação).
* Um conflito "interno" que depende de ser desencadeado por uma força estrangeira não se enquadra na narrativa de "guerra civil".
### ALEGAÇÃO Nº 2 — "Não havia soldados russos, apenas milícias locais"
VEREDICTO: FALSO
A 17 de abril de 2014, Vladimir Putin reconheceu publicamente que o pessoal militar russo estava a operar "atrás" das chamadas forças de "autodefesa" na Crimeia, permitindo uma ação que foi "correta mas resoluta".
O que isto demonstra:
O mecanismo de intervenção de 2014 baseava-se na negação, em atores locais de frente e no controlo operacional real a partir dos bastidores.
O conflito do Donbass começou usando o mesmo manual: o precedente estabelecido na Crimeia destrói a plausibilidade de uma revolta puramente local.AFIRMAÇÃO Nº 3 — "Crimeia e Donbass: Dois Casos Não Relacionados"
VEREDICTO: ENGANADOR
A tomada da Crimeia foi uma operação rápida e encoberta (mais tarde reconhecida).
Girkin (Strelkov) coloca as suas próprias ações em continuidade direta com a operação da Crimeia.
Os métodos são comparáveis: tomada de edifícios, estabelecimento de autoridades paralelas, negação oficial.
A diferença está no resultado (anexação rápida vs. guerra prolongada), não na natureza das ações: é a mesma lógica de intervenção.
AFIRMAÇÃO Nº 4 — "De acordo com o direito internacional, isto é um conflito interno"
VEREDICTO: FALSO
Evidências Institucionais (Crimeia)
O relatório de 2016 do Gabinete do Procurador do Tribunal Penal Internacional (TPI) afirma que a informação disponível sugere que a situação na Crimeia equivale a um conflito armado internacional entre a Ucrânia e a Federação Russa.
Evidências Institucionais (TEDH)
A Grande Câmara do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) decidiu sobre o caso interestadual Ucrânia v. Rússia (sobre a Crimeia) (acórdão de 25 de junho de 2024), abordando, entre outras coisas, o exercício da jurisdição extraterritorial russa e violações na Crimeia desde fevereiro de 2014.
OBJEÇÃO COMUM — "Houve participantes locais"
Veredicto: Verdadeiro, mas não decisivo. A presença de participantes locais não prova uma guerra civil se:
1. O desencadear do conflito é atribuído a uma força vinda da Rússia (Girkin), e
2. O mesmo estado admite fornecer supervisão militar num teatro vizinho ao mesmo tempo (Putin/Crimeia).
Portanto, a guerra no Donbass começou de facto através de intervenção armada direta russa, tal como em fevereiro